Câncer de mama — Foto: Getty Images
Seus exames estão em dia? Diagnóstico de câncer de mama aumenta em jovens, entenda o cenário
Embora o câncer de mama seja prevalente em mulheres acima dos 40 anos, cresce o número de casos entre as mais jovens, de acordo com dados brasileiros e norte-americanos. Mais do que respostas para o aumento, embora desejáveis, fica o desafio de combater a desinformação para melhorar os índices de diagnósticos precoces e aumentar as chances de cura
Por Isabella Marinelli (@isabellamarinelli)
19/10/2023 04h09 Atualizado há 2 anos
Foi em um exame de rotina que a executiva de marketing Vanessa Verea descobriu um tumor maligno na mama. O diagnóstico vindo de um médico de confiança, amigo da família, fez com que ela nem procurasse uma segunda opinião. No pensamento, diante do baque da notícia que ninguém quer receber, ela preferiu encarar com objetividade. "Pensei: ok, estou com câncer, vou fazer uma cirurgia e isso será resolvido", conta. Não foi tão simples assim, apesar de poder contar com o suporte de um plano de saúde para agilizar o processo. O resultado da biópsia saiu no sábado, os detalhes do nódulo maligno vieram na terça-feira e, em questões de dias, ela já estava começando a primeira sessão de quimioterapia.
Foi necessária a colocação de um catéter, responsável por receber a medicação e fazer com que ela circule mais rápido. No caso dela, foram indicadas seis rodadas de quimioterapia, que foram cumpridas a cada três semanas. Durante o tratamento, recebeu suporte de medicação para melhorar os sintomas e usou uma touca gelada para tentar brecar o efeito de queda dos cabelos. "Num primeiro momento, não quis trocar com outras pessoas com câncer de mama. Eu sabia que ouvir a experiência de outras pessoas poderia enviesar a minha, fazer com que eu procurasse similaridades, e eu queria permanecer focada no meu próprio caso e na minha vivência", conta.
Com muito apoio da mãe e da empresa que trabalha, do institucional aos pares e liderança, foi seguindo em frente no tratamento. "Eu aproveitava cada momento em que estava me sentindo bem. Hoje, e para o meu caso, os tratamentos são modernos. Segui trabalhando, porque fazia bem para a minha cabeça e porque eu não queria viver em função da doença, queria ter outros assuntos. Durante as químios, viajei, fui a um casamento e voltei às cinco da manhã. Quando não estava bem ou cansada, as minhas amigas faziam os programas na minha casa. Fiz questão de me manter socialmente ativa, porque, a primeira coisa que os médicos dizem, é que a cabeça é muito importante para o prognóstico", afirma.
A descoberta foi em meados de fevereiro de 2022 e, agora, em outubro de 2023, ela está curada, em acompanhamento e tomando medicações para prevenir o retorno da doença. "Descobri uma força e uma positividade muito grandes em mim. Tive medo do que seria a minha vida naquele ano, mas não tive medo de morrer. Hoje, fui transformada, valorizo cada momento em que estou bem para viver a vida. Também notei o quanto o câncer é respeitado, mas, muitas vezes, outras questões de saúde e de saúde mental são negligenciadas em termos de empatia; algo que precisamos repensar", reforça.
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É o que diz um estudo publicado em meados de agosto no JAMA Network, o Journal of the American Medical Association, um periódico médico revisado por pares, publicado 48 vezes por ano pela American Medical Association nos Estados Unidos. De acordo com os dados, os números de diagnósticos entre pessoas de 30 a 39 anos cresceu 19,4% entre 2010 e 2019. Entre as idades de 20 a 29 anos, o salto foi de 5,3%. Os valores contribuem para o maior número de casos em pessoas jovens. A taxa de tumores em estágio avançado também cresce; foi cerca de 3% na faixa inferior a 40 anos, de acordo com a American Cancer Society. E, enquanto a mortalidade entre mais velhas caiu, o mesmo não aconteceu entre jovens.
O aumento também foi identificado por aqui. Para estabelecer um panorama, vale dizer que o câncer de mama é o mais incidente entre as brasileiras. Cerca de 10% deles têm origem hereditária, os outros 90% não. Dados da Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM) apontam um aumento da incidência da doença entre mulheres antes dos 35 anos. Atualmente, o número está em 5% entre as mulheres jovens que são acometidas pelo câncer de mama no Brasil. Antigamente, a porcentagem girava em torno dos 2%.
Um levantamento inédito do Grupo Fleury endossa dizendo que 37% das diagnosticadas com câncer de mama têm menos de 50 anos e 10% são mulheres abaixo de 40 anos. São índices parecidos aos divulgados por outras instituições nacionais, como o do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (ICESPFMUSP), feito no ano passado, que aponta a taxa de 35,8% de tumores de mama em mulheres abaixo dos 50 anos.
Este é o ponto levantado pela mastologista Rosemar Rahal, professora da Universidade Federal de Goiás e tesoureira da Sociedade Brasileira de Mastologia. De acordo com a médica, a entidade vem capitaneando uma defesa pela adoção da mamografia como exame de rotina para mulheres a partir dos 40 anos. Hoje, a diretriz do Ministério da Saúde pede a partir dos 50. "Percebemos que um terço dos casos de câncer de mama acontecem na década entre 40 e 50. Deste modo, podemos salvar muitas vidas", argumenta a médica.
A mamografia, nunca é demais reafirmar, se trata do protocolo ouro em termos de diagnóstico do câncer de mama. "Antes dos 40 anos, entretanto, a literatura não mostra tanta efetividade em razão da densidade mamária. Isso não significa que deve haver descuido antes disso. O cenário já muda para quem tem casos na família, especialmente os que aparecem cedo. Entre essas pessoas, mapeamos a família e olhamos desde cedo", afirma.
"Nem todo nódulo será maligno, aliás, a maior parte deles não será, mas sempre precisamos avaliar", reforça. Vanessa, por exemplo, descobriu o nódulo em uma ultrassonografia comum e o diagnóstico foi fechado após mais exames específicos. Para a especialista, há questões decisivas em relação ao tratamento e à sobrevida. "É preciso entender que o câncer de mama são várias doenças. Cada pessoa precisa de um tratamento personalizado, pois há muitas variações", introduz. Os tratamentos possíveis e as drogas disponíveis também dependerão se o acompanhamento é feito pelo Sistema Único de Saúde ou pelo aparelho privado.
Embora discutidas, não se pode afirmar quais são as justificativas possíveis para essas mudanças de cenário. É sabido que estilo de vida saudável, com a prática de exercícios físicos e sem tabagismo, ajuda na prevenção, assim como se manter em um peso saudável. Mas entram outras questões na equação: o adiamento ou opção por não ter uma gestação, a menstruação precoce e a menopausa tardia também são fatores, porque os seios ficam mais tempo expostos ao estrogênio. Dados norteamericanos publicados na revista Cancer, da American Cancer Society, também apontam que as mulheres negras têm maior probabilidade de receberem um resultado relativo à forma mais agressiva, chamado de triplo-negativo. Elas também têm menores índices de sobrevida. Entre as razões, podem estar fatores socioeconômicos e maior exposição à poluição.
Entretanto, há mais questões que falam alto. É unânime que quanto antes se encontra, melhores e maiores são as chances de cura. E, para isso, é muito importante considerar o acesso à informação tanto para a prevenção quanto pelo medo relacionado ao diagnóstico. Em informação porque, de acordo com uma pesquisa do Instituto Datafolha a pedido da farmacêutica Gilead, a disseminação do conhecimento sobre câncer de mama chega a 9 em cada 10 (97%) mulheres no país, das quais 69% se consideram bem informadas e 28% mais ou menos informadas. Entretanto, as taxas caem entre as mulheres negras, com até o ensino fundamental completo, e nas classes D e E, nas quais os índices daquelas que se consideram menos informadas são maiores. As negras, soma de pretas (28%) e pardas (33%), relatam maior dificuldade para conseguir informação sobre a doença em comparação às brancas. O estudo também denuncia como as barreiras afetam de maneira desproporcional mulheres dos estados fora do eixo Sul-Sudeste, pobres, com baixa escolaridade.
"O medo é outro fator crucial. Muitas mulheres deixam de fazer exames temendo pelo resultado ou fazem, mas não buscam ou não retornam ao médico; deixam os resultados guardados. É preciso entender que eles são aliados, é uma segurança para nós", diz Rosemar. Por exame, entenda os testes de laboratoriais e de imagem, além do toque feito em consultório por um especialista.
E o autoexame? Caiu em desuso? Muitas vezes, quando a mulher sente o nódulo no banho ou em situação do tipo, ele já está em um tamanho grande. Mais do que em autoexame, é importante falar em conhecimento sobre o próprio corpo e, consequentemente, dos próprios seios. "Câncer de mama, na imensa maioria das vezes, não causa dor. Entretanto, precisamos observar outros sinais, como a retração da pele (como se fosse a formação de uma "covinha") ou mudança de textura, feridinhas que não cicatrizam no mamilo, inchaço e vermelhidão, além da secreção espontânea de um líquido transparente feito água ou sanguinolento", diz. Nesses casos, vale marcar uma consulta o quanto antes conseguir. Não pela certeza do diagnóstico, mas para tê-lo o mais rápido possível, até por uma questão de saúde mental também.
E, em qualquer cenário, não acredite que idade é um definidor do positivo ou negativo da malignidade. "Dra., posso afirmar que, apesar da prevalência, o monitoramento para câncer de mama por exames de rotina é fundamental mesmo para as jovens?", questionei a especialista. Ela confirmou. Fica o nosso recado de autocuidado neste mês de conscientização. Os seus exames estão em dia?
Fonte:https://glamour.globo.com/bem-estar/saude/noticia/2023/10/seus-exames-estao-em-dia-diagnostico-de-cancer-de-mama-aumenta-em-jovens-entenda-o-cenario.ghtml
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